quinta-feira, 23 de junho de 2016

Agora que as palavras dormiam






Decidira deixá-las adormecidas entre as folhas , que nem queria abrir …
Decidira deixar as palavras quietas e caladas dentro das pétalas das flores … 
Decidira … que iria parar por um tempo …
Precisava pensar no sentido das coisas e do sentir. Afinal o sentir parecia algo tão efémero, que já nem se lhe via o rosto … aquele que decidira esconder lá dentro de si … fechado dentro da alma…
Alma palavra tão rebuscada mas com tamanha intensidade … nela cabia a vida toda…
Já tinha esquecido a alma que punha nos poemas que escrevia … para ficarem ali ao lado num livro suspenso, registado, mas intacto … Tudo nela permanecia intacto … Tudo nela pedia … Tudo nela suspirava … Tudo nela era um registo sem data… Voltaria no dia em que a lua se vestisse com outra roupa, e o mar … ainda se mantivesse ali debruçado a seus pés … como um « pequeno príncipe » que ela sem saber aprendera a amar…Um dos seus maiores defeitos era o sentimento de posse… Aquilo que gostava tinha de amar incondicionalmente. Sem máscaras , sem farsas, sem disputas, simplesmente tinha de amar o que sem saber já amava … Coisas simples que lhe aconteciam raras vezes pois não era uma predadora … Era uma mulher a quem a vida pedia momentos de silêncio … quando se sentia naquele paralelo de emoções… 
Chorar … não … sempre fora forte… Mas sentia que as pedras da rua queriam dormir dentro de si, naquele frio que a fazia estremecer, sem saber. Desiste … dizia-lhe a consciência… Esquece essa forma de sentir, arranja outra. Como? Replicava ela . se só conheço uma forma de sentir?… 
Daria um tempo ao tempo … afastar-se-ia das palavras como se elas não tivessem momentos … E não tinham … Escrevia-as com a doçura de quem confessa momentos … Iria dar tempo ao tempo , para tentar não sentir …como se isso fosse possível? …

( hoje num pedaço do meu mundo )



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